Moda Indígena: Descubra os trabalhos da Amazon Poranga Fashion rumo ao mundo

A primeira edição do Amazon Poranga Fashion começou recentemente no Centro Cultural Povos da Amazônia, em Manaus, com entrada gratuita. O evento oferece uma programação variada, incluindo oito oficinas, uma mesa redonda, três desfiles, palestras, exposições e várias apresentações culturais. Alguns nomes marcantes da moda nacional e internacional, todos originários do Amazonas, fazem parte dessa iniciativa que marca um novo momento no cenário artístico e criativo do Estado, enfatizando a importância da memória e do resgate das raízes indígenas, além de sustentar um sólido empreendedorismo.

Considerando que o Amazonas abriga a maior concentração de povos indígenas, o Amazon Poranga Fashion é considerado um marco significativo pelo estilista local Maurício Duarte. Ele expressa o desejo de atender esse movimento, afirmando que se São Paulo está de olho na região, é hora de promover esse impulso. O evento está sendo planejado para se tornar um calendário anual com atividades diversas, começando com essa primeira experiência, que se estende por vários espaços, como o Icbeu (Instituto Cultural Brasil Estados Unidos), o Centro Cultural Povos da Amazônia e a faculdade Santa Tereza.

Maurício Duarte, que estudou Corte e Costura em Manaus e Moda na capital amazonense, expandindo depois de sua formação em São Paulo, ressalta a importância de falar sobre os povos originários e sua luta, além de reconhecer a população composta principalmente por indígenas, ribeirinhos e quilombolas. Sua jornada na moda começou há mais de dez anos, quando ele e sua mãe pediram para participar de feiras de artesanato. Ao longo do tempo, ele se aprimorou por meio de oficinas e cursos oferecidos por instituições como Cetam e Senai. Seu trabalho inicial envolve pintura em peças de roupa, retratando elementos da fauna amazônica, como araras e tucanos, como forma de expressar sua origem.

Como membro do povo Kaixana, Maurício fundou sua própria marca, a Maurício Duarte Brand. Em 2022, ele se tornou o primeiro estilista do Amazonas a participar da São Paulo Fashion Week, realizando um desfile digital no evento. Em maio de 2023, apresentou presencialmente a coleção “Teias”, que recebeu destaque tanto do público quanto da crítica especializada em moda. Essa coleção representa uma continuidade em seu processo artístico e busca promover a união e colaboração entre os profissionais do setor, ressaltando que as marcas não são concorrentes, mas sim parceiras em uma construção coletiva.

Maurício enfatiza que a moda é parte da economia criativa e um caminho para a economia circular, além de ser uma forma de proteger o trabalho dos indígenas. Ele defende que, assim como a música e as artes plásticas, a moda pode ocupar espaços culturais, como exposições e galerias de arte. Um exemplo disso é um dos looks de sua coleção “Teias”, que foi feito com a técnica de cestaria, utilizando arumã e produzido por um artesão de São Gabriel da Cachoeira. Para Maurício, a moda é uma forma de arte que merece ser apreciada em diferentes contextos e ambientes.

Letramento Étnico-Racial

Com 25 anos de idade, o designer de moda Siodohi atribui ao seu trabalho um caráter de demarcação. Enquanto linguagem artística que trabalha com a elaboração de significados a moda influencia a maneira como se enxergar e se posicionar no mundo, para Siodohi, existe um efeito dessa construção na identidade dos povos indígenas.

“Minha trajetória dentro da moda vem com a contação de história, da nossa própria história, por nós mesmos, enquanto indígena Piratapuya, do território do Alto Rio Negro, eu compartilho a minha vivência e os desafios que nós passamos por meio das minhas criações, por meio dos fashion films”, destaca o estilista que também exibe uma de suas criações audiovisuais durante o evento.

As falas trazidas pelo artista e as presenças em suas coleções se tornam materiais atemporais, que traduzem uma luta contínua, que saem dos seus territórios e ganham as passarelas.

“Além da questão do design, penso nas peças em acabamento de alfaiataria, penso na moda gênero, nesse lugar também do conforto das peças e na pesquisa tecnológica e ancestral, a exemplo: utilizo corante a base da casca de mandioca”, o artista complementa ressaltando que apesar do momento delicado que a população indígena vive desde a colonização, a arte e a moda se tornam plataformas para a continuidade dos sonhos de manter vivo o conhecimento, a história e a identidade indígena.

Para Siodohi ter a posse de informações e conhecimento se torna um diferencial para o impacto e o propósito da moda indígena. “É preciso entender que nem tudo é vendável, a moda é a queridinha do capitalismo, então a gente precisa estar atento até que ponto a nossa moda vai caminhar no comércio, até que ponto nosso ativismo tende a se limitar apenas a negócios. A partir disso, é muito importante, é claro, a gente pensar num cenário da moda que respeite os direitos humanos”, pontuou.

Considerando os povos indígenas como pessoas genuinamente periféricas, o artista menciona o escritor e líder indígena Ailton Krenak. “Estamos na periferia do mundo, agarrados à beira de rios e oceanos e, muitas vezes, esquecidos”., opina.

“Somos mais de 300 povos indígenas, nossa geração tem uma corresponsabilidade para lutar contra o movimento da antiga visão da moda, da superficialidade como ela foi constituída, como realmente uma forma de diminuir a massa e tentar ser superior a outras pessoas. É uma luta de ego no cenário da moda, então, precisamos ter cuidado para não perder nossas raízes, nossa base”, explicou o designer.

O fluxo de sair do Amazonas para buscar visibilidade e, só depois disso, conseguir atrair atenção e interesse local é visto como problemático para Siodohi, que enxerga eventos como o Amazon Poranga Fashion oportunidades de reverter essa lógica. “É o momento de trazer essa pauta olhando para os erros do passado, tentando ver para onde estamos caminhando agora e ver os cenários que virão pela frente no futuro”, finalizou.

Mulheres e Moda Indígena

A trajetória do Ateliê Derequine, localizado no bairro indígena Parque das Tribos, Zona Norte de Manaus, tem como ponto central a independência financeira e inovação criativa de mulheres indígenas das mais diversas origens do Amazonas, já que o bairro possui mais de 30 etnias diferentes entre as mais de 800 famílias que ali vivem.

Foi nessa comunidade que Vanda Witoto impulsionou uma cadeia de mulheres a costurarem e encontrarem no empreendedorismo um futuro profissional. A professora, técnica em enfermagem e líder socioambiental, comenta que o evento Amazon Poranga Fashion coloca em um local de protagonismo mulheres como ela.

“É mais um projeto que visa a valorização da nossa cultura e trazer sobretudo os corpos indígenas para essa passarela. É maravilhoso trazer os corpos amazônidas para esse espaço. É importante que o Amazonas, que produz moda, seja protagonista desse processo”, destaca.

Ainda sobre a necessidade de visibilidade no Amazonas, Vanda destaca a importância da iniciativa. “A gente precisa sair daqui pra tentar mostrar nossa arte pra fora e depois retornar pra cá, é importante que aqui seja esse celeiro de dentro para fora, que as pessoas conheçam a partir da produção daqui, dos artistas, das modelos, dos estilistas, pra fora. É um espaço importante que está sendo construído”, ressaltou.

Considerando a indústria têxtil uma das mais poluentes do mundo, Vanda também destaca o caráter sustentável desses empreendimentos. “A nossa perspectiva de moda dá num caminho diferente dessa indústria de moda que tanto polui, que também se utiliza de trabalho escravo, a gente sabe que muitas marcas detêm essa mão de obra extremamente precarizada”, salienta.

“No Ateliê Derequine, por exemplo, é a minha família, outras mulheres da comunidade, outras parentas que estão costurando e a gente faz a divisão do que tá sendo vendido de forma igualitária. Além do mais a gente traz elementos da natureza para compor nossas peças, sementes naturais, isso diminui o impacto de certa forma, também trabalhamos com as sobras de tecido da própria indústria que polui, tentando diminuir esses impactos”, finaliza Vanda destacando a característica ecológica no Amazonas, na possibilidade de diminuir os impactos negativos que prejudicam a população.

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