“Criaturas Incrivelmente Brilhantes” (Remarkably Bright Creatures; 2026), recentemente lançado na Netflix, conta a história de uma senhora idosa viúva que trabalha como faxineira noturna em um aquário. Engana-se quem imagina que a história se resume a esfregões e demais tarefas rotineiras. O filme, baseado no livro de Shelby Van Pelt, utiliza-se do espaço do aquário e da fictícia cidade Sowell Bay, Washington, para construir uma história profunda e sensível com muitos momentos de encontro com o passado – um exercício que nem sempre é fácil.
Do interior de um aquário, de um tamanho muito inferior ao que seria adequado para animais marinhos, o polvo reflete sobre a sensação de liberdade e lembra de cada corrente marítima, de cada lugar por onde passou. Ele também sente falta do silêncio que há no fundo mar, que é bem o contrário de onde está, sobretudo em horário de visitação pública. Além disso, sente falta de ficar só, da paz e da sua verdadeira casa – que é o seu habitat natural.
A única pessoa que parece não incomodá-lo é a faxineira. Todas as noites em que está trabalhando no recinto e outras em que decide ir visitá-lo ou atender a algum chamado excepcional, ela passa pelo aquário do polvo, a quem chama de Marcellus (dublado por Alfred Molina). Ela desabafa, conversa, conta fofocas e faz várias demonstrações de admiração por ele, estabelecendo uma relação de amizade. Essa personagem é Tova Sullivan, interpretada pela incrível Sally Field (duplamente vencedora do Oscar: “Norma Rae” e “Um Lugar no Coração”). Aos 79 anos de idade e dona de uma carreira exemplar, com uma filmografia extensa e versátil, no filme, ela reúne toda a sua experiência acumulada ao longo de muitos anos de atuação e entrega uma personagem complexa, com muitas camadas. Com total convicção, consegue transmitir as emoções da personagem, sobretudo quando reencontra o passado e relembra ou confidencia sua relação com o filho, conferindo profundidade às cenas.
Tova é uma mulher madura que guarda muitas emoções, daquelas que pesam sobre a vida. Apesar de parecer sociável, ela se isola o quanto é possível, trabalha à noite, reduzindo as possibilidades de (novas) relações, planeja uma mudança sem avisar as pessoas mais próximas – suas amigas de longa data -, e sente que é um peso para elas. Até aqui, é certo que muitas pessoas tenham se identificado com a personagem, porque os seres humanos, apesar de sociáveis, nem sempre conseguem se comunicar e estabelecer conexão uns com os outros. As relações exigem não somente comunicação, mas também entrega.
O único ser com quem ela parece se relacionar melhor é o polvo do aquário, que visita e limpa todos os dias. Ela conversa, e ele parece ouvir; ele foge do aquário, e ela tenta ajudá-lo e, assim, estabelece-se uma relação entre os dois. Os espectadores conseguem ouvir o polvo; ela não, mas sente e consegue compreender os comportamentos do animal.
O polvo teve sua vida na natureza interrompida e foi levado para o aquário; Tova também teve sua vida atravessada por um acontecimento profundamente triste: a morte do filho. A personagem está presa ao passado, sofrendo por imaginar coisas e culpando-se por esse acontecimento. Esse é o ponto de encontro entre os dois personagens: ambos têm a vida marcada pela perda e pela sensação de aprisionamento. Um reconhece a necessidade do outro; um tenta ajudar o outro.
O polvo, de fato, é um animal bastante inteligente. Tem capacidade de camuflagem e se defende de predadores expelindo jatos de tinta durante a fuga, mas, no filme, são exploradas outras capacidades e, ainda que de maneira ficcional, a missão dele na história é ainda maior: salvar a si próprio e sua amiga.
Esse é um filme bastante sensível, em que é possível, desde o início, se envolver com os personagens, compreendendo o sofrimento pelo qual eles vêm passando há bastante tempo. Tova acredita que, para resolver os próprios problemas, precisa se afastar, acreditando que uma vida nova existirá em outro lugar e ao lado de outras pessoas. Em certa altura do filme, uma personagem questiona: “Que sentido faz se você deixa de viver?”. E isso acaba conduzindo a reflexões muito profundas sobre a vida.
Acredito que não exista dor maior do que a dor que uma mãe sente ao perder um filho. E essa parece ser a âncora que prende Tova em um “lugar” que lhe rouba o sentido de viver. Não acredito que exista alguém que não tenha um ponto triste da própria vida para contar, mas, no caso da personagem, isso é o que a afasta de novas perspectivas. Por vezes, aquilo que parece ser o lado mais sombrio da vida de cada pessoa acaba roubando o presente e determinando, inclusive, um futuro menos promissor e menos feliz. A infelicidade e a falta de perspectiva também dificultam perceber as redes de apoio, os vínculos e as amizades que existem ao redor. A tendência passa a ser o isolamento. E o filme mostra isso de maneira muito sensível e intensa em alguns momentos, sem ser melodramático, mas tocando nesses aspectos, levando à reflexão sobre amizade, cuidado e a importância das relações humanas.
A história permite reflexões sobre temas sempre atuais, mas nem sempre debatidos, como o luto, a dificuldade de encará-lo e também de seguir vivendo após a perda de pessoas muito próximas e importantes. Assim, o filme possibilita uma compreensão acerca da solidão e do isolamento emocional. Mas a história também mostra um caminho para a superação de desafios, valorizando as relações de amizade e os vínculos familiares. Mesmo depois de sofrimentos tão profundos, ainda é possível encontrar afeto, sentido e esperança. Essa, na verdade, é a razão que mantém as pessoas vivas e as faz seguir em frente, como acontece com Tova.

Ficha Técnica
- Estados Unidos, 2026
- Direção: Olivia Newman
- Roteiro: Olivia Newman, João Whittington
- Produção: Bryan Unkeless, Peter Craig, David Levine
- Elenco: Sally Field, Lewis Pullman, Joan Chen, Kathy Baker, Beth Grant, Sofia Black-D’Elia, Colm Meaney, Alfred Molina